era uma vez… na tarde!

Distraída, a tarde esquecera-se do tempo, extasiada na contemplação do astro-rei incandescente, viajante solitário pelo azul cintilante do céu, quase tudo luz, quase tudo brilho, quase, porque as sombras das árvores, dispersas qual baralho de cartas abandonado aos caprichos do vento norte em pleno estio disfarçavam, em segredo, a canícula tão esperada como sufocante, ansiosa do sossego refrescante das fontes!
Lentamente, as cigarras penduravam seus gritos estridentes nos últimos raios solares, já menos abrasadores, repousando na promessa de renovados ardores, cedendo o espaço à saltitante algazarra dos passarinhos espreitando, por entre os folhedos, os despojos que os humanos deixaram pelo chão escaldado e sedento, no rescaldo da espera por um pouco de humidade.
Lá no alto, indiferentes à azáfama do recolher, as gaivotas passeavam-se, altivas, do mar para terra ou da terra para o mar, perscrutando as dunas, ao sabor dos ventos, entretanto mais suaves, indecisas entre o gosto do sal e a doçura das lagoas, mas atentas ao mais pequeno sinal, entre a espuma das ondas, para mergulhos picados, qual caçador treinado, paciente e certeiro.
Era o último fôlego para os viajantes do dia, incerto nos seus últimos minutos, sacudido pela brisa, refrescante, agora instalada para alegria dos seres amantes da acalmia: a seguir, outros haveriam de iniciar suas investidas neste universo plural, descansando por aqui até à volta das horas matutinas, anúncio de renovada esperança em lento despertar.
No firmamento aparecia a estrela da tarde, piscando o olho à lua, em crescendo, jogando às escondidas com a luz do poente, alaranjada e serena, cedendo o caminho, cansada, a novos passageiros celestiais: outras vidas, outras crenças, outras luzes, outros cantos… a calma da noite rompendo do espaço, tão imponente como o dia se instalando agora, por outras paragens, senhora dos silêncios reconfortantes, colo para os coaxares refrescantes no leito dos pântanos ou margens das lagoas: as rãs estavam lá, bem perto da tarde esquecida, lembrando-lhe o seu fim, condição de perenidade.
A tarde cedera, enfim, à lei do tempo e, reconfortada pela promessa de breve amanhecer, agora desperta, acomodava-se entre as esteiras da calma, suave, revigorante, promissora! Pé ante pé, chegara a noite!
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27 responses to “era uma vez… na tarde!

  1. Meu AmigoLindo este texto belissimo…poético..pleno de um lirismo que eu tanto gosto.As fotos maravilhosas…dão brilho ás tuas palavras…e neste encanto nem dei pela chegada da noite…BeijoGraça

  2. E numa tarde assim plena de vida e duma calma apaziguadora chegou a noite, ” pé ante pé “.
    Delicioso texto.
    Bela foto.

    Beijinho

  3. Quicas, boa noite!
    Um texto lindamente escrito, o que não me surpreende, já que segue na linha da qualidade a que nos habituou, gostei muito!

    Beijinho,
    Ana Martins

  4. O encontrei em Ana e vim…e gostei…e voltarei se você gostar de minha poesia. Aí, se abre um caminho florido de rosas de todos os tons

Agora que "me" leu, se não for pedir demais, queira deixar algum "reflexo" da leitura! Obrigado E... volte sempre!

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