Era uma vez, na tarde

Half set

Distraída, a tarde esquecera-se do tempo, extasiada na contemplação do astro-rei incandescente, viajante solitário pelo azul cintilante do céu, quase tudo luz, quase tudo brilho, quase… porque as sombras das árvores, dispersas qual baralho de cartas abandonado aos caprichos do vento norte em pleno estio disfarçavam, em segredo, a canícula tão esperada como sufocante, ansiosa do sossego refrescante das fontes!
Lentamente, as cigarras penduravam seus gritos estridentes nos últimos raios solares, já menos abrasadores, repousando na promessa de renovados ardores, cedendo o espaço à saltitante algazarra dos passarinhos espreitando, por entre os folhedos, os despojos que os humanos deixaram pelo chão escaldado e sedento, no rescaldo da espera por um pouco de humidade.
Lá no alto, indiferentes à azáfama do recolher, as gaivotas passeavam-se, altivas, do mar para terra ou da terra para o mar, perscrutando as dunas, ao sabor dos ventos, entretanto mais suaves, indecisas entre o gosto do sal e a doçura das lagoas, mas atentas ao mais pequeno sinal, entre a espuma das ondas, para mergulhos picados, qual caçador treinado, paciente e certeiro.
Era o último fôlego para os viajantes do dia, incerto nos seus últimos minutos, sacudido pela brisa, refrescante, agora instalada para alegria dos seres amantes da acalmia: a seguir, outros haveriam de iniciar suas investidas neste universo plural, descansando por aqui até à volta das horas matutinas, anúncio de renovada esperança em lento despertar.
No firmamento aparecia a estrela da tarde, piscando o olho à lua, em crescendo, jogando às escondidas com a luz do poente, alaranjada e serena, cedendo o caminho, cansada, a novos passageiros celestiais: outras vidas, outras crenças, outras luzes, outros cantos… a calma da noite rompendo do espaço, tão imponente como o dia se instalando, agora, por outras paragens, senhora dos silêncios reconfortantes, colo para os coaxares refrescantes no leito dos pântanos ou margens das lagoas: as rãs estavam lá, bem perto da tarde esquecida, lembrando-lhe o seu fim, condição de perenidade.
A tarde cedera, enfim, à lei do tempo e, reconfortada pela promessa de breve amanhecer, agora desperta, acomodava-se entre as esteiras da calma, suave, revigorante, promissora!
Pé ante pé, chegara a noite!…

Joaquim do Carmo (reedição – a publicar)

Foto “Half Set”, de Joana do Carmo

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2 responses to “Era uma vez, na tarde

  1. Tão querido amigo Quicas,
    sempre uma delícia com um misto de encanto e renovação interior deixar embalar o pensamento nas cadeias das suas palavras em descrições pictóricas tão belas, reflexo dessa sensibilidade que aprendi a admirar.
    Belo demais para se perdr uma única vez!
    Fraterno abraço

Agora que "me" leu, se não for pedir demais, queira deixar algum "reflexo" da leitura! Obrigado E... volte sempre!

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